Monday, October 07, 2002

 
Night train
Tom Crowning - Night Train

O trem

"Há um trem, noturno às vezes, mas que pode aparecer até no furor do sol brilhante - e que, mesmo assim, de dia, é o Trem da Noite. Passa disparado e súbito pelos trilhos, vindo não se sabe de onde. Pára nas estações; aparenta estar completamente vazio. Mas se alguém tiver a curiosidade de subir por seus degraus, nunca mais voltará. Ao transpor o umbral da porta, torna-se tão invisível quanto os demais passageiros que o povoam, todos presumivelmente vítimas da mesma sorte. Mecanicamente, as portas se fecham e, no mesmo instante, com um agoniado silvo da locomotiva, o trem se põe de novo em movimento. Sob uma espessa coluna de fumaça negra, desaparece rapidamente no horizonte - para nunca mais voltar."

Ibiamoré - O Trem Fantasma - Roberto Bittencourt Martins - L&PM: Porto Alegre - RS, 1981


 
Sexta

Sexta de novo. Grito clichês... o tempo voa, corro feito doida, meu relógio parou no meio de tanta confusão, nem ele quer me suportar. Prova de semântica, não estudei. Fiz. Entreguei meia hora depois. Drica veio comigo, a costumeira carona. De novo. Não. Não. Hoje não. É noite estrelada, está quente. Eu não bebo, Drica também não... mas temos um motivo. Ficamos as duas a consumir o precioso combustível pelas "avenidas" da cidade santa, procurando um lugar para moças decentes. Sim, claro que nada há de mais decente do que o interior de nossa casa, mas eu não tenho casa, e Drica é uma menina muito séria, precisa se divertir mais. Uma cerveja e uma porção de fritas. Nós duas sentadas em um bar freqüentado por nossos alunos... hmmmm... péssima idéia a de querer esconder o rosto dentro da travessa de batatas. Não vou falar nada sobre o som ambiente. Não. Não vou falar. Foi uma tentativa, enfim. Caminhamos um pouco, olhamos vitrines, sorrimos para os conhecidos... eu sorri apenas para desconhecidos porque não conheço mesmo ninguém. Passou, enfim... ufa...


 
Velhas Cartas

"Você nunca saberá o bem que sua carta me fez..." Sinto um choque ao ler esta carta antiga que encontro em um maço de outras. Vejo a data, e então me lembro onde estava quando a recebi. Não me lembro é do que escrevi que fez tanto bem a uma pessoa. Passo os olhos por essas linhas antigas, elas dão notícias de amigos, contam uma ou outra coisa do Rio, e tenho curiosidade de ver como ela se despedia de mim. É do jeito simples: "A saudade de..."

Agora folheio outras cartas de amigos e amigas; são quase todas de apenas dois ou três anos atrás. Mas como isso está longe! Sinto-me um pouco humilhado pensando como certas pessoas me eram necessárias e agora nem existiriam mais e minha lembrança se eu não encontrasse essas linhas rabiscadas em Londres ou na Suíça. "Cheguei neste instante; é a primeira coisa que faço, como prometi, escrever para você, mesmo porque durante a viagem pensei demais em você..."

Isto soa absurdo a dois anos e meio de distância. Não faço a menor idéia do paradeiro dessa mulher de letra redonda; ela, com certeza, mal se lembrará do meu nome. E esse casa, santo Deus, como era amigo: fazíamos planos de viajar juntos pela Itália; os dias que tínhamos passado juntos eram "inesquecíveis".

E esse amigo como era amigo! entretanto, nenhum de nós dois se lembrou mais de procurar o outro.

Essa que se acusa e se desculpa de me haver maltratado - "mais pourquoi alors ai-je été si mechante... j'ai du te blesser, pardon... oh, j'étais vraiment stupide et tu dois l'oublier... je veux te revoir..." mas eu não me lembro de mágoa nenhuma, seu nome é apenas uma doçura distante.

E que terríveis negócios planejava esse meu amigo de sempre! Sem dúvida iríamos ficar ricos, o negócio era fácil e não podia falhar, ele me escrevia contente de eu ter topado com entusiasmo a idéia, achava a sugestão que eu fizera "batatal", dizia que era preciso "agir imediatamente". É extraordinário que nunca mais tenhamos falado de um negócio tão maravilhoso.

Aqui, outro amigo escreve do Rio para Paris me pedindo um artigo urgente e grande "sobre a situação atual na literatura francesa, pelo menos dez páginas, nossa revista vai sair dia 15, faça isso com urgência, estamos com quase toda a matéria pronta." Não fiz o artigo, a revista não saiu, a literatura francesa não perdeu nada com isso, a brasileira, muito menos.

As cartas mais queridas, as que eram boas ou ruins demais, eu as rasguei há muito. Não guardo nenhum documento sequer das pessoas que me afligiram e mais me fizeram feliz. Ficaram apenas, dessa época, essas cartas que na ocasião tive pena de rasgar e depois não me lembrei de deitar fora. A maioria eu guardei para responder depois, e nunca o fiz. Mas também escrevi muitas cartas e nem todas tiveram resposta.

Imagino que em algum lugar do mundo há alguém que neste momento remexe, por acaso, uma gaveta qualquer, encontra uma velha carta minha, passa os olhos por curiosidade no que escrevi, hesita um instante em rasgar, e depois devolve à gaveta com um gesto de displicência, pensando, talvez: "é mesmo, esse sujeito onde andará? Eu nem me lembrava mais dele..."

E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta: cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida - essa carta que não diz mais nada e apenas tem força para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.

Rubem Braga
Dezembro, 1953

200 Crônicas Escolhidas, Record: Rio de Janeiro


Friday, October 04, 2002
 
Horizontes

De que forma é o seu horizonte? O que você vê naquelas linhas? Há horizonte em seus olhos? Um dia houve? Haverá? O meu horizonte está atrás de uma neblina e eu ainda não conheço a forma. Mas o dela é Geométrico. E lindo.


 
Dieter Frangenberg

Querida Rosana

Desde que recebi o teu e-mail, em julho, tenho pensado que preciso te convidar para um café. Dizer coisas. Minha vida (de cabeça para baixo) não tem permitido que eu me demore longamente com gestos importantes e necessários. O medo que nunca escondi tornou-se mais intenso e dizer coisas agora é mais amedrontador do que antes era (e antes já era muito). No entanto, tenho percebido que este medo, pânico, pavor, terror, ou seja lá o que for, é um sentimento aliado e não um inimigo. Primeiro porque ele me protege (como pode, coitado) e depois porque ele me faz procurar palavras, substituir o que não é dizível. Falar com medo e ainda assim falar, me parece não apenas uma forma de subversão (coisa que me apaixona), mas também uma arte.

O que ocorre é que você tocou meu coração em um momento em que a dor me rasgava ao meio. E em casos assim, não é possível dizer sem ser completamente franca. Então eu te respondi rapidamente agradecendo e não disse. E ainda não digo agora, mas sei... tenho certeza absoluta que você sabe.

Teu comentário em um dia desses me fez pensar novamente que eu preciso tomar um café com você. Mas provavelmente sentaríamos com nossas xícaras uma em frente da outra e eu ficaria te olhando. Provavelmente não diria, não contaria com clareza, não saberia dizer se você não perguntasse. E você perguntaria? Talvez não. E se perguntasse, eu diria? Talvez, sim. O importante, Ro, é que você veio até aqui para um café. Não fez perguntas. Não deu conselhos (embora eu os tenha escutado). Você não fala muito, mas tuas entrelinhas dizem. E como Dizem...

A pergunta, eu a tenho escutado. Eu mesma a tenho feito. Respondo diferente todos os dias e sei que só vou me sentir bem no dia em que eu conseguir responder de forma clara e aceitar essa exatidão como ponto de partida. Parto um pouco todos os dias, não mais de um lugar ou de uma pessoa. Parto um pouco de mim mesma e ao abandonar-me assim devagar, penso que é urgente que eu encontre a outra que virá me habitar. Por isso caminho. Caminho para ela. Para minha vida. Uma que eu ainda não conheço, nem sei onde está.

Escrevi aqui porque outras pessoas não perguntam e nem sabem como me dizer, mas creio que no bule há café suficiente para quem quiser sentar à mesa. Escrevi aqui porque há em você algo que eu gosto muito e quando eu gosto muito, gosto que outras pessoas gostem também.

Meu carinho e um beijo.


 

Minha querida secretária,

Você não tem reclamado do salário atrasado, da falta de plano de saúde, da necessidade de férias, décimo terceiro e adicional noturno. Ainda assim, eu deixei passar em brancas nuvens o Dia das Secretárias. Sei que ninguém melhor do que você para compreender o quanto eu ando enrolada. Sei que você vai dizer que há dois anos você me conheceu enrolada. E eu não teria como negar. Mas, veja bem, nossa relação trabalhista não está acima de nossa relação "amiguista". Você pode pedir demissão, mas não pode deixar de ser a grande amiga que eu amo. Então, peço que me perdoe como "chefe ingrata", mas não posso pedir desculpas à amiga, porque você nem gostaria disso... faria aquela cara feia, resmungaria com um sotaque "arretado" algo como "tu tá louca, dona Ro?". Preciso que você continue trabalhando pra mim. De graça. Não. Com graça. Vou ficar podre de rica uma hora dessas e prometo pagar tudo, tudinho, em "cash" e com juros.

Anota isto. Depois me dá aqui que eu assino. Aí você vai ali no cartório e reconhece firma. Não esqueça de passar no banco antes de passar no Correio... e se alguém perguntar, diga que estou no meio de uma reunião importante... e amanhã eu não venho trabalhar, mas você não está dispensada... e eu preciso que você termine aquilo que eu te pedi ainda hoje... risos...

Adoro você.


 

Antes de escovar os dentes

O que acontece é mais ou menos o seguinte: ele resolve dormir na casa dela, só hoje, ok... amanhã não. Depois de amanhã ele faz de novo. Sem problemas, escova de dentes e uma cueca. As coisas vão ficando legais. A escova de dentes fica, ela arruma um cantinho no armário, ele vem mais vezes. Ela fica chateada e se sente só quando tem que dormir sozinha... e um dia, quase sem perceber a casa dele é outra. Mudou-se e não avisou a ninguém. A correspondência continua chegando na casa antiga. As pessoas continuam ligando para aquele número, mas os amigos mais íntimos já sabem que é melhor ligar para a casa da "fulaninha" se quiserem saber do moço. Na casa anterior, ele aparece como visita. Pega a correspondência, os jornais, os recados na secretária eletrônica, mas fica pouco tempo. Não, ele não quer anunciar oficialmente... ainda não tem certeza se ama de fato esta mulher, há detalhes a serem acertados e, além do mais, se anunciasse ao mundo, perderia este espaço de silêncio e privacidade tão necessário para os começos. É isto. Nem sempre as pessoas planejam ou anunciam mudanças, mas às vezes o fazem devagar e silenciosamente.

Acho que perdi minha escova de dentes... alguém viu?


Thursday, October 03, 2002
 
Justificativa

Então... há pouco mais de cinco anos (Deus... já serão seis?!) , eu resolvi que não faria a transferência do meu título de eleitor para a Aldeia onde eu passei a morar por duas razões simples. Primeiro, eu não ficaria muito tempo ali (a idéia inicial era um ano, no máximo dois) e segundo, seria uma boa razão para viajar os quinhentos quilômetros e passear na minha cidade alegre.

Rá-rá-rá... A primeira idéia era idiota. A segunda nunca se concretizou. Meu voto tem sido uma seqüência de justificativas. Ou seja, meu voto se parece muito com minha vida. Este ano eu decidi que iria fazer diferente, combinei com um amigo, dividiríamos o custo do combustível e finalmente eu exerceria meu direito de cidadã. Mas, eu não sei o que tem acontecido com todos os meus planos... nenhum funciona. O amigo viajou antes da data. Eu fiquei dura. Nenhum candidato apareceu para comprar meu voto... uma passagenzinha de ônibus e eu já pensaria em negociar. Pois bem. Fico aqui só assistindo o barulho. De qualquer forma, minha vida anda tão bagunçada que já não consigo raciocinar muito bem em relação ao coletivo. A amiga com quem estou morando é PT fanática (ops... redundância? risos... há quem diga que sim). Eu gosto dela. Há estrelas por todo o apartamento, mas nunca falamos de política, economia, problemas sociais, ou os rumos do nosso país. Eu já tive uma bandeira e já cantei "sem medo de ser feliz". Hoje eu não cantaria isto... já tive medo de ser feliz e descobri que meus medos às vezes não são infundados. Sinto algo estranho, uma mistura de culpa e alívio porque queria muito sentir vontade de votar, mas acabo me achando uma felizarda por não ter que fazer esta escolha. Tudo faz parte deste meio mundo em que vivo... se não estou aqui nem ali, que governo tenho? Fantasma não vota. Fantasma não briga. Não perde nem ganha. Não, não, não... eu não estou certa. Estou apenas exercendo o meu direito de ser fantasma.


Tuesday, October 01, 2002
 
Mozinha, minha mana querida...

O homem de amarelo deixou na minha caixinha o teu envelope pardo. Desnecessário dizer que você me arrancou risos e lágrimas. Muitos risos. Muitas lágrimas (e ranhos também). Fiquei olhando pra você, ouvindo a tua voz, sentindo o teu carinho de amiga e não podia agradecer por isso na medida certa. Vou te responder decentemente, eu juro. Estou espantada com algumas coisas que você me disse. Fátima??? Uma moça querida, lembro de seus comentários... mas, o que meus pobres e humildes textos podem estar provocando em alunos das escolas de Belo Horizonte??? Mozinha, faça alguma coisa... eu não sou poeta, nem escritora! Sou uma estagiária... de verdade. Estagiária é meu posto máximo. Estagiária da vida. Nem sei se um dia vou merecer ser efetivada e às vezes nem sei se quero... estagiários ficam assim com cara de paspalho, fazem o que é preciso, observam calados e escrevem relatórios hipócritas para agradar as autoridades da vida. Sou uma estagiária cínica, que desliza por entre as normas, que acha brechas para praticar subversões e que se desculpa com cara de inocente. Estagiários nunca são inocentes, são atores, são curingas, são mágicos com as malas cheias de objetos coloridos.

Obrigada, amiga. Hoje me senti mais viva por causa do teu envelope pardo. Agradeça à Fátima pelo carinho e aos alunos dela (pelo bom gosto??? risos). Todas as demais fofocas eu escreverei em papel e deixarei que o homem de amarelo te entregue. Aguarde.

Um beijo (morta de saudades)!


 
Luciano Giombini

Abrindo um pouco...

Tenho um carinho enorme pelo Posta-restante. Fechar a porta, lacrá-lo é algo que não me faz bem. A verdade é que estou em um período de transição e é bem maior do que eu gostaria. Respondendo ao e-mail de uma amiga eu tentei explicar que estou no limbo... aquele lugarzinho especial entre o céu e o inferno. Não me comportei bem, mas ainda tenho uma chancezinha. Lembro das histórias que eu ouvia na minha infância, sobre as boas ações salvarem as almas do purgatório. Alguém aí se candidata??? Em alguns dias eu tenho certeza absoluta que mereci este momento complicado, estou colhendo o que plantei, quase quero me bater. No entanto, há outros dias em que eu tenho certeza que não mereço tanto assim, digo que sou uma pessoa do bem, que cometo errinhos bestas, que faço coisas que ninguém teria coragem de fazer, mas só faço quando amo... e isso acontece umas duas ou três vezes por vida.

Fui uma filha razoável, tive boas notas na escola, fui uma esposa exemplar (podem perguntar pro dito cujo ex), trabalhei duro para ajudar alguns banqueiros a ganhar mais dinheiro (será que é por isso o meu castigo?), cuidei bem de minhas plantas, amei especialmente um vaso mas tive que me desfazer dele, deixei a porta aberta da gaiola do canário, fiz amigos, sonhei com o mar, sou boa aluna e trabalho de graça com todo o afinco. Mesmo assim, estou sem pátria, sem rumo, sem tempo, sem casa, sem grana, sem graça e o que é pior... muito pior... sem sonhos. Perdi aquela chave do compartimento dos sonhos. Eu que sempre falei que era importante manter este lugar arejado.

Faço e refaço minha contagem de dias: faltam 66... desconto os dez daquele feriado programado para a segunda quinzena de outubro (viagem para o Rio cancelada por motivos vários, mas ainda vou viajar para algum lugar longe daqui), então são cinqüenta e seis dias de Cidade Santa. Posso agüentar? Não sei. Em alguns dias eu tenho certeza absoluta que não. Tenho uma amiga tão adorável, mas tão adorável que me disse: "eu não sei como você suporta... no teu lugar eu pensaria em suicídio"! Juro que ela disse isto!!! E aí eu começo a achar engraçado. É quando a dor ultrapassa o limite do suportável e a gente não sabe se está sentindo ou se é apenas imaginação. Fico rindo de mim mesma, das minhas tolices, dos meus desesperos idiotas, da minha falta de paciência, do calendário riscado, do trigo que começa a amadurecer no campo... e eu com ele, amarelando também.

Reflexo de tudo isto é o Posta-restante. O lugar onde ficaram meus sonhos. Mas, embora perdida, é verdade que ando por aí a caminhar na floresta atrás da casinha com telhado de chocolate. Não... não me venham com sapos, lobos e fadas... só quero roer o telhado... (estou rindo e deixando pedacinhos de pão pelo caminho mesmo sabendo da existência dos passarinhos).


 
Da vida...

Noite de sexta, estrelada e quente. O dia não podia ter sido pior, o cansaço moeu meus ossos e minha alma. Escolhi assim, eu sei. Achei que era eu a mulher maravilha com cinturão dourado exatamente nas medidas da poderosa. Não. Não era. Sexta é um dia em que tenho que lecionar pela manhã e também à tarde. À noite tenho uma aula de semântica... céus! Procuro um pouco de semântica nesta minha vidinha doida e sem sentido, mas a professora jamais me daria uma luz. Era para entregar hoje aquela resenha sobre o Lyons que eu comentei ser "barbada" quando há duas semanas ouvi os "ohs" das minhas colegas. Fiz a resenha depois da aula que dei para os "anjos" da turma da manhã e antes do programa de índio que eu tinha com os queridos da turma da tarde. Não foi barbada. Tenho vontade de me estrangular por essa mania de escrever meus trabalhos no último minuto, mas de fato, não tenho mais de onde tirar tempo. Saí da faculdade e dei uma carona para Drica, estacionamos diante do prédio dela. Fico pensando que deveríamos estar em um bar, bebendo e dando risada por qualquer coisa... as estrelas estão pedindo alegria. Mas ficamos ali, quase meia-noite, dentro do carro com Gil e Djavan batendo papo sobre o que nos torna amigas. Preciso dela mais do que ela imagina.

Ela não se conforma e nem eu... o que vimos durante à tarde na "programação cultural" em que acompanhamos nossos alunos dói demais em mim. Sinto alívio por perceber que dói nela também. Comecei a chorar quando ouvi o animador da platéia pedir para que nossas crianças o ajudassem a cantar uma música... "vou dormir na praça, pensando nela". Foi a primeira vez que ouvi esta fabulosa composição cantada do início ao fim. As crianças cantaram. Os professores cantaram. O auditório inteirinho! E eu chorando. Vergonha. Tristeza. Frustração. Percorri um caminho difícil demais para chegar a este ponto, não me conformo. Tentei ficar até o final, mas minha bolsa me puxou pelo braço quando ouvi algo como "baba Baby..." e eu já não queria chorar mais. Agora, é noite estrelada e quente de sexta e eu olho pra Drica pedindo que ela me diga o que fazer. Queria enfiar todas as minhas tralhas dentro deste carro que eu ainda não consegui vender e tomar a estrada para qualquer lugar, longe de tudo e de preferência longe de mim. O Pessoa dizia que valia a pena... mas, e se forem pequenas? muito, muito, muito pequenas? Noite estrelada e minha alma cansada quer ter direito de não fazer parte disto. Saudade das noites em que eu podia ser eu.


 
Ok... peraí que eu eu tô abrindo. Queridos amigos piratas, por favor, não arrombem!!!